O jornalista Artur da Távola, conhecido por escrever sobre televisão, fez uma intrigante análise sobre o perfil de Mira Maia, a personagem rebelde interpretada por Lídia Brondi na novela “Baila Comigo”.

Távola faz uma analogia entre a personagem de Manoel Carlos com a Medusa, conhecido ser mitológico capaz de petrificar quem mirasse em seus olhos. No final, o jornalista elogia a performance de Lídia. O texto foi publicado no jornal “O Globo”, de 9 de agosto de 1981. Confira:

Mira e as bofetadas da vida

Por Artur da Távola

Mira Maia como personagem vem crescendo e pelo jeito vai disparar em termos dramáticos. A semana registrou em “Baila Comigo” o seu momento talvez mais intenso quando é esbofeteada por Helena, após dura conversa no quarto.

Helena se impressiona com a dureza de Mira e pergunta se ela não chora. Ela diz que não. – “Não com uma bofetada da senhora”. O diálogo foi um dos mais diretos e bem escritos da longa coleção de acertos dramáticos dessa telenovela.

Mira deverá ser a grande solista dessa fase semifinal de “Baila comigo” (acaba em setembro). Ela representa uma figura difícil: a da medusa. A medusa petrifica quem a olho. Por quê? Por ser uma representação da extrema lucidez. A extrema lucidez é terrível: ela petrifica os demais porque sua luz (lucidez é atributo de iluminação, de luz) desvenda para quem a mira (sem ou com trocadilho) a própria vaidade, a própria incapacidade de ver os erros, as maldades.

Sei lá, até, se no plano inconsciente, o autor pós o nome de Mira sem o saber inspirado pelo mito da medusa. Mirar à medusa é paralisar-se, petrificar-se. A medusa ”mira” alguém e a petrifica. Mira é a consciência crítica daquele grupo. Jamais cedeu às ilusões envolventes.

Sofreu e sofre bastante a dependência, a pobreza humilhada, o seu orgulho mal trabalhado, para que aceite o que é pacifico para os demais. Ela pode não saber rebelar-se. Mas sabe por que se rebela.

A atriz Lídia Brondi vem realizando o papel de maneira impecável. Dura, aparentemente fria, com uma emoção interna e com deslizamentos (interiores) de terra jamais perceptíveis aos demais. Tudo nela vai fundo: a dor, o ódio, a capacidade de ver o real. Um belo personagem em grande destaque na semana que passou.

Fonte: Acervo TV-Pesquisa da PUC-Rio.

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